Metodologia

Como o Cadeira Vazia calcula presença e ausência de deputados federais

Por que metodologia importa

Transparência radical é parte da proposta deste projeto. Cada número que aparece em um boletim — taxa de presença, ranking de ausências, percentual da bancada — vem de uma regra explícita aplicada sobre dados públicos da API da Câmara dos Deputados. Esta página descreve cada uma dessas regras.

A base não é opinião editorial: é o Regimento Interno da Câmara dos Deputados (RICD), complementado pela Constituição Federal. Quando dizemos que um deputado “faltou” em um dia, estamos usando o mesmo conceito que a Mesa Diretora da Câmara usa para decidir desconto de subsídio e, em tese, perda de mandato. Não inventamos critérios próprios.

Esta página é citada por cada matéria publicada no blog do Cadeira Vazia. Se você quer auditar um número, ver como classificamos um evento, ou entender o que está fora do escopo — está tudo aqui.

O que conta como ausência

Apenas a ausência em sessão plenária deliberativa entra na conta. É o tipo de sessão que o Art. 70 do RICD define como destinada à discussão e votação de matérias — o trabalho legislativo no sentido estrito.

A escolha não é arbitrária: é a mesma distinção que o próprio Regimento faz. As regras de obrigatoriedade (Art. 240, III) e de desconto de subsídio (Ato da Mesa nº 67/1997) só se aplicam a sessões deliberativas. Outras atividades — comissão, audiência pública, sessão solene comemorativa — têm regras próprias e não geram penalidade de plenário.

Na prática, isso significa que o filtro aplicado aos dados brutos da API da Câmara é simples e auditável: mantemos apenas eventos onde o órgão é exatamente Plenário. Comissões, audiências e atividades administrativas ficam fora desta conta — não porque sejam irrelevantes, mas porque o RICD as trata por outro caminho.

A regra dos 2/3

O Art. 240, inciso III do RICD reproduz a norma do Art. 55, III da Constituição: o deputado perde o mandato se deixar de comparecer, em cada sessão legislativa ordinária, à terça parte das sessões ordinárias da Câmara, salvo licença ou missão autorizada. Em outras palavras, o piso de presença obrigatória é dois terços das sessões deliberativas do ano.

Em números concretos: se a Câmara realiza 60 sessões plenárias deliberativas em um ano legislativo, o deputado precisa comparecer a pelo menos 40. A partir da 21ª falta, em tese, está configurada a hipótese regimental de perda de mandato.

Na prática, a Mesa Diretora raramente aciona essa regra. Mas o critério existe, é regimental e é o que ancora a noção de “ausência grave” no Cadeira Vazia.

Denominador 513

A Câmara dos Deputados tem 513 cadeiras. Esse é o denominador padrão dos cálculos: quando dizemos “30% da Câmara faltou”, o denominador é 513. Não 513 menos licenciados, não 513 menos vacâncias temporárias — sempre 513.

Por quê: a cadeira existe para ser ocupada. Quando um titular se licencia, um suplente assume e a cadeira passa a contar para esse suplente. Quando uma vacância não é preenchida imediatamente, a cadeira segue vazia — e é exatamente esse o tipo de ausência que o projeto quer tornar visível.

A API da Câmara classifica cada deputado pelo campo condicao. Para o cálculo de presença, consideramos apenas quem está em situação “Exercício” na legislatura atual — o titular efetivamente investido naquele momento (que pode ser o eleito original ou o suplente assumindo a vaga).

Semana vigente

Boletins recortam períodos. O recorte canônico chamado “semana vigente” é definido operacionalmente assim:

Exemplos da definição:

Por que esse recorte e não “últimos 7 dias”: “esta semana” tem significado intuitivo para o leitor brasileiro (segunda a sexta de plenário). Janela honesta — de 1 a 5 dias conforme o dia da emissão — reflete o tempo real, não uma janela artificial.

A implementação canônica está em products/boletim/src/boletim/editorial/windows.py (função semana_vigente), e este recorte é referenciado em todo boletim que fala de “esta semana” ou “semana vigente”.

Exemplo numérico

Suponha que, em um ano legislativo, a Câmara realizou 60 sessões plenárias deliberativas. O deputado X compareceu a 35 dessas sessões.

Esse é o exemplo regimental. Na vida real, a Mesa Diretora raramente aciona o dispositivo, e ausências podem ser justificadas a posteriori. Mas o número que o Cadeira Vazia publica é exatamente esse: presença bruta sobre sessões deliberativas elegíveis.

O que NÃO conta

O Cadeira Vazia não trata como falta de plenário:

Tudo isso permanece nos dados de origem (camada silver do pipeline) para análises complementares, mas não entra na conta de presença/ausência do projeto.

Limitações dos dados

A API pública da Câmara dos Deputados não devolve a justificativa de cada ausência individual. Em consequência:

Essa limitação é estrutural e está documentada para que cada leitor possa avaliar o número com o contexto adequado. Mais detalhes sobre o projeto e a pesquisa de origem estão em Sobre o Cadeira Vazia.

Citações literais do RICD

Os artigos do Regimento Interno da Câmara dos Deputados citados nesta página, na íntegra das partes relevantes:

Norma complementar:

Linkagem

Veja também: